Aqui é a tal da janela que você nunca cansou de encantar, embora hoje, falando sério, talvez nem queira mais cantar. Depois da ditadura, da semiótica, do excitante, de bocados de gim, das filosofias, da poesia concreta, do baseado, da política, do rock'n roll, depois de tanta música, prosa, verso, prozac e papo furado, depois da banda passada. Aqui é a tal da janela, ou, melhor, agora da ciberjanela. Pois é, Chico, essa moça tá diferente, a música popular brasileira tá diferente, o país tá diferente. Mas não estamos te passando pra trás, não. As canções que você fez estão aí, pedaços de nós, conterrâneos seus, a nos descobrir, Brasil que não se vê na TV, e a nos revelar, parintintins moderninhos, corações suburbanos, donas com tufões nos quadris, Rosas com rimas e sem projeto de vida. É por isto que tomo a liberdade de te incluir naquela linha de narradores que descrevem terras, gentes e lutas e, ao narrar, nos criam e recriam, nós, lazarilhos, os que nas rodoviárias assumimos formas mil, em enchentes amazônicas, explosões atlânticas, alegorias, carnavais, proparoxítonas e paradoxos. É por isto que eu te vejo ao lado de Gregório de Mattos, Euclides da Cunha, João do Rio, entre aqueles que, além dos significados, trouxeram para dentro de seus textos música, cores, formas e movimentos. Ficasse só nisto, Chico, como mais um narrador da nossa modernidade cambaia, já seria suficiente. Mas, como eu resolvi fazer um texto bem pra frente, dizendo realmente o que é que eu acho, preciso ser muito sincera e clara. Em suas canções sua voz de autor se amalgama ao povo, dono da voz, de um jeito manso, que é só seu, mas de um jeito nosso, que, agora, sabemos, é um jeito mundial de estreitar nós entre as línguas e os costumes: a música popular. Dando um chute no lirismo e um fora no violino, a música popular brasileira é, como diz Jean Laude, não uma forma, mas um modo de agenciamento das formas. A música popular é o que não tem governo nem nunca terá, na contramão do cartesianismo e do Adorno. É força ao mesmo tempo civilizatória e libertária em que, como tão bem fala o José Miguel Wisnik, "entram elementos de lirismo, de crítica e de humor: a tradição do carnaval, a festa, o non-sense, a malandragem, a embriaguez da dança e a súbita consagração do momento fugidio que brota das histórias do desejo que todas as canções não chegam para contar".. advinda do "uso ritual, mágico, o uso interessado da festa popular, o canto-do-trabalho, em suma, a música como instrumento ambiental articulado com outras práticas sociais, a religião, o trabalho e a festa". Ou, como você diz, "Cantar a canção da vida... preparando a terra, entornando o vinho... cantar a canção do gozo, preparando a tinta, enfeitando a praça, noite e dia, noite e dia..." Por umas e outras, acho que a música popular brasileira rompe as oposições, tão enraizadas quanto ideológicas, entre civilizado e bárbaro, corpo e alma, corpo e mente, público e privado, passado e presente, nós e eles. Será isto que seu colega Caetano chama de "força estranha" e que em suas canções está presente não só como metáfora inteligente mas, sobretudo, como ritmo e corpo, paródia e força subversiva. Sabia que seu sanatório geral tem muito a ver com os sertões do Euclides da Cunha? Aquela coisa arcaica, porém rebelde: alas de barões famintos, blocos de napoleões retintos e os pigmeus do bulevar a inverter, loucos, a ordem estabelecida. Mas, em vez da ascese revoltosa dos mestiços do Euclides, você, que não vem de celta e tapuia, mas de paulista, pernambucano, mineiro e baiano, nos dá sarapatel, caruru, tucupi, tacacá e feijoada completa O corpo, o gozo, a transgressão, o excesso, a mestiçagem e a mulher como evolução da liberdade. Em toda origem há uma mestiçagem, e, se a ciência não pode provar o contrário, suas canções, repercutindo modinhas e batuques, tropicalizando o fado e enobrecendo o bolero, nos delatam como Calabares nascidos da urgência de cafusas e holandesas e da ausência de pecado nas bandas de baixo do Equador. Que coisa mais Gilberto Freyre, né? Peço licença às feministas, por atravessar suas teses, e ao Rinaldo Fernandes, que escreveu um mestrado sobre o assunto, mas não posso deixar de falar das mulheres, ou, melhor, do feminino, que em suas canções cumpre, muitas vezes, o papel político de denunciar, desorganizar o projeto, desestabilizar o establishment.. Mulheres que não são uma outra voz do dono, como as Bovarys, Luísas e Capitus, mas donas da voz, dos sentimentos e da ação. Mulheres que não são tampouco o esteio da norma e, portanto, da propriedade e da repressão. Agora está parecendo manifesto anarquista... Mulheres que são cria da rua, fêmea, par, irmã, incesto, Rosas do povo, vadias. Mas que te reconhecem e jamais te esquecem. Voltamos sempre, Chico, na boca do povo, cantando, para a nossa casa, esta "zona temporária autônoma", como diz o Hakim Bey, que partilhamos, contemporâneos. Este lugar bagunçado, que é feito da mesma matéria dos sonhos e das canções. É por tudo isto, e por muitas coisas mais, que considero suas canções como um clássico, ou, nas palavras de Italo Calvino, uma obra que nos chega trazendo impressa a marca das leituras que a precederam a nossa e deixa, ela própria, uma marca na cultura. Talvez seja um pouco atrevida nisto, como no resto. Será por causa de algum anjo safado. Mas vou até o fim. E você, com suas canções, vai me seguir aonde quer que eu vá. Não devo ter dito aqui mais do que o que você já ouviu e muita gente sabe sobre sua arte. Para fazê-lo, apropriei-me de idéias e frases de Mário de Andrade, Carlos Drummond de Andrade, Amálio Pinheiro, José Miguel Wisnick, Hermano Vianna, Silviano Santiago, Roberto Carlos, Caetano Veloso, Italo Calvino, Hakim Bey, que entendem desses e de outros assuntos. E também das suas; me perdoe, por favor, se não lhes faço justiça. As fichas não caíram todas, mas você deve estar louco para ouvir Fluminense e River Plate. Obrigada, Chico, pelas canções que você fez pra nós.
Beijos, tudo de bom,
Não direi:
Que o silêncio me sufoca e amordaça.
Calado estou, calado ficarei,
Pois que a língua que falo é de outra raça.
Palavras consumidas se acumulam,
Se represam, cisterna de águas mortas,
Ácidas mágoas em limos transformadas,
Vaza de fundo em que há raízes tortas.
Não direi:
Que nem sequer o esforço de as dizer merecem,
Palavras que não digam quanto sei
Neste retiro em que me não conhecem.
Nem só lodos se arrastam, nem só lamas,
Nem só animais bóiam, mortos, medos,
Túrgidos frutos em cachos se entrelaçam
No negro poço de onde sobem dedos.
Só direi,
Crispadamente recolhido e mudo,
Que quem se cala quando me calei
Não poderá morrer sem dizer tudo.
(In OS POEMAS POSSÍVEIS, Editorial CAMINHO, Lisboa, 1981. 3ª edição)
Eu sou a terra, eu sou a vida.
Do meu barro primeiro veio o homem.
De mim veio a mulher e veio o amor.
Veio a árvore, veio a fonte.
Vem o fruto e vem a flor.
Eu sou a fonte original de toda vida.
Sou o chão que se prende à tua casa.
Sou a telha da coberta de teu lar.
A mina constante de teu poço.
Sou a espiga generosa de teu gado
e certeza tranqüila ao teu esforço.
Sou a razão de tua vida.
De mim vieste pela mão do Criador,
e a mim tu voltarás no fim da lida.
Só em mim acharás descanso e Paz.
Eu sou a grande Mãe Universal.
Tua filha, tua noiva e desposada.
A mulher e o ventre que fecundas.
Sou a gleba, a gestação, eu sou o amor.
A ti, ó lavrador, tudo quanto é meu.
Teu arado, tua foice, teu machado.
O berço pequenino de teu filho.
O algodão de tua veste
e o pão de tua casa.
E um dia bem distante
a mim tu voltarás.
E no canteiro materno de meu seio
tranqüilo dormirás.
Plantemos a roça.
Lavremos a gleba.
Cuidemos do ninho,
do gado e da tulha.
Fartura teremos
e donos de sítio
felizes seremos.
Certas canções só devem ser ouvidas por pessoas que sejam romanticas e que sejam ternas. Portanto, deixo pra vocês amigos ( as ) esta belissima canção do Grupo Catavento ( Sorocaba - SP ) e com ela um grande beijo desejando a todos um fim de semana de muito paz e harmonia!!!
Bebel
Olá amigos!!!
É com profunda admiração e orgulho que compartilho com vocês um dos trabalhos da grande poetisa e mulher a baiana Sandra Mamede.
Beijos a todos e um lindo final de semana
O MAR E A LUA
Fazendo uma noite linda
Com clima ameno
A lua na sua imponência
Resolveu provocar o mar:
- Daqui do alto, te contemplo
e tenho muita pena de ti, ó mar.
Ao que o mar respondeu:
- Pena de mim?! Porque terias pena de mim?!
Por acaso sou digno de pena?!!!!
A lua continuou;
-Sinto sim, muita pena de ti..
.ficas aí embaixo, quase morto
sem nenhum movimento,enquanto eu,
aqui garbosa e muito linda,
ilumino a todos e a tudo,
inspiro os poetas,
acalento os solitários,
apaixono os namorados,
e enamoro a todos.
Sou superior a ti em todos os sentidos.
Desperto o interesse de todos,
Quantos já vieram aqui me conhecer,
Descobrir os meus segredos
E não conseguiram.!!!
Deus me criou para reinar soberana
Para ser o ponto de referência da terra,
O que seria deste planeta sem mim?!!
O mar, ouviu a tudo calado
E na sua calma, contemplando a lua
Com um olhar complacente, respondeu:
- Como tenho pena de ti minha amiga!!!
Achas que beleza é tudo?!
Pensas que és superior a mim
pois estás no alto e és muito bela,
reconheço e não nego...
Pobre coitada...o que seria de ti sem mim?!
Por que sabes que és bela?
Onde contemplas a tua beleza?!
O tempo todo deixo que me uses como um espelho,
Nunca te cobrei nada, nunca reclamei,
Pelo contrário, gosto de vê-la bela e feliz.
Mas agora sou obrigado a mostrar
que não és tão importante quanto pensas...
Não és fiel,
és volúvel e muito vaidosa
e também fingida
mudas de comportamento.
Todo o tempo.
Por trás desta tua arrogância
Tens muita insegurança,
És nova, cheia, crescente e minguante.
És muito inconstante!!!
Eu sou sempre o mesmo
Não engano.
Sou transparente nas minhas atitudes,
Sou manso, calmo, sereno.
Quando estou zangado, não finjo
Simplesmente reclamo, fazendo muito barulho,
Sou útil em todos os sentidos
Dou lazer a todos
Sou meio de transporte
E principalmente sou fonte de alimentação.
Foi sobre mim que Jesus andou...
Foi de mim que Jesus tirou muitos peixes
Que serviram como alimentação para milhares.
Até hoje alimento a muitos sem sequer cobrar nada...